O Poeta
Malabarista
Talvez
o título pudesse ser “Argentino suicida”, “Jovem suicida” ou algo similar ao
que vemos cotidianamente escrito na mídia. Mas eu o vi fazendo malabares, o vi
recitando uma carta de despedida, o vi sorrindo e cantando após as equipes de
bombeiros do GBS e do Estreito evitarem pela primeira vez seu suicídio. Virou
notícia naquele dia, após ameaçar se jogar da Ponte Hercílio Luz. Naquela
ocasião me coloquei à disposição da Guarnição do Estreito e ficamos com um
caminhão atravessado numa das pistas da Beiramar Norte, para propositalmente
bloquear os carros evitando um atropelamento caso o pior sucedesse.
Para
cima da ponte a equipe do GBS se deslocou equipada com material de salvamento
em altura e preparada para a paciência de uma negociação psicológica. Lá
embaixo recebi um par de luvas e refleti enquanto as calçava. O jovem nos
olhava de cima e eu pensava no que passaria na cabeça dele nos vendo de luvas
calçadas. Lá em cima a negociação se arrastava por cerca de uma hora entre momentos
de avanço e de retrocesso. Lá em baixo os veículos que passavam pela outra
pista berravam “se joga fdp!” ou “não vale a pena!” enquanto outros pedestres
curiosos se somavam. Equipes da TV chegaram e, enfim, os bombeiros convenceram
o rapaz de não cometer a pior ação.
Após
um período retornei para o GBS e, entrando na cozinha, me deparei com o cidadão
que avistara lá de baixo. Era um jovem loiro, de bom aspecto, apesar das roupas
sujas, que fazia malabares dentro da cozinha do quartel, contrariando todas as
condutas da nossa tradicional instituição militar. Naquela situação atípica,
muitos dos bombeiros tentavam travar uma conversa com aquele rapaz de língua
espanhola, parecendo um tanto descontraído ao ponto de entender que estava na
verdade um tanto quanto desconfortável. Ria e cantava, se deitando e sentando
no banco.
Ofereci um
sanduíche que trouxera, ele aceitou de pronto. Aproveitei para perguntar de
onde ele era, há quanto tempo estava em Florianópolis e onde morava. Ele
respondeu que era de Bariloche, estava há 7 meses na Ilha e não morava em lugar
nenhum. Vendo-o com seu caderno em mãos perguntei se escrevia e ele disse que
escreveu sua despedida. Nesse momento todos se calaram e ele recitou as
palavras como num poema trágico, onde a tragédia era sua vida. Não
compreendemos tudo o que falara devido à ignorância, mas todos sentiram o tom
da dor.
Não consegui a
aproximação que queria, ele estava um tanto quanto desorientado, disperso na
maioria do tempo. Falou em Canasvieiras, tentei dizer que morava perto, mas
acho que mal fui ouvido. Um Sargento tentava uma aproximação quase desesperada,
mas também não tinha reciprocidade do jovem.
Logo em
seguida minha namorada chegou no quartel e partimos dali de carro. Lembro
nitidamente de ter falado pra ela que o principal do atendimento teria de ser a
partir de agora, com algum acompanhamento. No dia seguinte uma matéria no
jornal cobrindo o caso disse que o jovem poderia pegar não sei quanto tempo de
cadeia pelo feito. Vendo o jornal com minha mãe disse: Daí sim é que ele se
mata.
Uma semana
depois cheguei em casa após um plantão e minha mãe disse: Sabe aquele
argentino? Morreu! Fiquei calado, baixei a cabeça e fiquei por alguns segundos
sem saber o que pensar. Perguntei como, mas ela disse que o jornal não deu
detalhes.
Senti culpa,
uma dor me corroeu durante o restante do dia, minha cabeça ia e vinha
relembrando dos momentos daquela ocorrência, das coisas que tinha dito, de um
fato que tinha quase que previsto, daquelas palavras de despedida, daquela
inteligência, daquele dom artístico que ele tinha, daquela vida inteira por
acontecer...
No outro dia
perguntei pra equipe dos bombeiros e eles disseram que foram chamados pra
resgatar um corpo boiando na beiramar norte...
Insuficiência?
Falha de procedimento? Destino? Livre arbítrio? Falha social?
Eu não tenho
respostas.
Hoje eu só
sinto uma dor latejante...
Sd Moreira
14/11/2013
14/11/2013

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