quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O Poeta Malabarista - (Sobre a ocorrência de tentativa de suicídio de um jovem na Ponte Hercílio Luz)

O Poeta Malabarista

            Talvez o título pudesse ser “Argentino suicida”, “Jovem suicida” ou algo similar ao que vemos cotidianamente escrito na mídia. Mas eu o vi fazendo malabares, o vi recitando uma carta de despedida, o vi sorrindo e cantando após as equipes de bombeiros do GBS e do Estreito evitarem pela primeira vez seu suicídio. Virou notícia naquele dia, após ameaçar se jogar da Ponte Hercílio Luz. Naquela ocasião me coloquei à disposição da Guarnição do Estreito e ficamos com um caminhão atravessado numa das pistas da Beiramar Norte, para propositalmente bloquear os carros evitando um atropelamento caso o pior sucedesse.

            Para cima da ponte a equipe do GBS se deslocou equipada com material de salvamento em altura e preparada para a paciência de uma negociação psicológica. Lá embaixo recebi um par de luvas e refleti enquanto as calçava. O jovem nos olhava de cima e eu pensava no que passaria na cabeça dele nos vendo de luvas calçadas. Lá em cima a negociação se arrastava por cerca de uma hora entre momentos de avanço e de retrocesso. Lá em baixo os veículos que passavam pela outra pista berravam “se joga fdp!” ou “não vale a pena!” enquanto outros pedestres curiosos se somavam. Equipes da TV chegaram e, enfim, os bombeiros convenceram o rapaz de não cometer a pior ação.
            Após um período retornei para o GBS e, entrando na cozinha, me deparei com o cidadão que avistara lá de baixo. Era um jovem loiro, de bom aspecto, apesar das roupas sujas, que fazia malabares dentro da cozinha do quartel, contrariando todas as condutas da nossa tradicional instituição militar. Naquela situação atípica, muitos dos bombeiros tentavam travar uma conversa com aquele rapaz de língua espanhola, parecendo um tanto descontraído ao ponto de entender que estava na verdade um tanto quanto desconfortável. Ria e cantava, se deitando e sentando no banco.
Ofereci um sanduíche que trouxera, ele aceitou de pronto. Aproveitei para perguntar de onde ele era, há quanto tempo estava em Florianópolis e onde morava. Ele respondeu que era de Bariloche, estava há 7 meses na Ilha e não morava em lugar nenhum. Vendo-o com seu caderno em mãos perguntei se escrevia e ele disse que escreveu sua despedida. Nesse momento todos se calaram e ele recitou as palavras como num poema trágico, onde a tragédia era sua vida. Não compreendemos tudo o que falara devido à ignorância, mas todos sentiram o tom da dor.
Não consegui a aproximação que queria, ele estava um tanto quanto desorientado, disperso na maioria do tempo. Falou em Canasvieiras, tentei dizer que morava perto, mas acho que mal fui ouvido. Um Sargento tentava uma aproximação quase desesperada, mas também não tinha reciprocidade do jovem.
Logo em seguida minha namorada chegou no quartel e partimos dali de carro. Lembro nitidamente de ter falado pra ela que o principal do atendimento teria de ser a partir de agora, com algum acompanhamento. No dia seguinte uma matéria no jornal cobrindo o caso disse que o jovem poderia pegar não sei quanto tempo de cadeia pelo feito. Vendo o jornal com minha mãe disse: Daí sim é que ele se mata.
Uma semana depois cheguei em casa após um plantão e minha mãe disse: Sabe aquele argentino? Morreu! Fiquei calado, baixei a cabeça e fiquei por alguns segundos sem saber o que pensar. Perguntei como, mas ela disse que o jornal não deu detalhes.
Senti culpa, uma dor me corroeu durante o restante do dia, minha cabeça ia e vinha relembrando dos momentos daquela ocorrência, das coisas que tinha dito, de um fato que tinha quase que previsto, daquelas palavras de despedida, daquela inteligência, daquele dom artístico que ele tinha, daquela vida inteira por acontecer...
No outro dia perguntei pra equipe dos bombeiros e eles disseram que foram chamados pra resgatar um corpo boiando na beiramar norte...
Insuficiência? Falha de procedimento? Destino? Livre arbítrio? Falha social?
Eu não tenho respostas.
Hoje eu só sinto uma dor latejante...

Sd Moreira
14/11/2013


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Se hoje eu me for...

Se hoje eu me for

Haveria como passar por esta vida sem gerar a dor de outrem?
Exagerei...
Machuquei, ainda que inconsciente, até que a paz me pegasse...
Profano, inconsequente, mundano.
Pequei.
Elas: Ética, Moral, Religião...
Eu humano - demasiado humano - diria aquele a que não me comparo...

Mas, se hoje me for,
Salvei.
Anônimos corpos furados,
Em olhos molhados,
Ajudei.

Pensando a salvo, intacto,
Enluvado,
Mas de outro sangue lavado
De perigo em perigo, à sombra dos vírus...

Salvar tornou vício,
Brevê? Logotipo! Sinistro...
Sinistros...
Taquicardia, sirene...
Eu. Agora! Pra isso!

Se hoje me for,
Talvez tenha ajudado. Além de machucado...
Tenha feito rir, além do que gerei chorado...
Feito ficar, além dos que às minhas mãos nos deixaram...

Palavras, atos, obituário...
Que Deus os tenha, abnegados...
Como me tem, a salvo...

Sd Moreira 24/8/13
Em especial aos colegas 3º/2ª - CEBM 2012

As ocorrências têm, em seu fundo, um quê de carência existencial.

Ontem, transportando um acidentado de moto fomos a primeira ambulância a chegar a esse acidente, que mais parecia um campo de guerra. infelizmente, com muita dificuldade retiramos uma vítima em óbito, motoqueiro que voou cerca de 15 metros até cair dentro de uma vala, provavelmente já sem vida. Um Focus se perdeu e invadiu a pista contrária; retiramos essa segunda vítima com KED e a conduzimos ao HCR. Um terceiro carro envolvido ainda tinha vítimas... A vida é um sopro, ontem foram cerca de 13 ocorrências com motos na Grande Florianópolis, além de dois espancamentos (um morador de rua foi espancado por 3 pessoas), atropelamento, tentativa de suicídio fora o que o SAMU e as outras guarnições do Bombeiro atenderam... Sinto que às vezes perdemos a noção de outras realidades, imersos em nossas pequenas ilhas que se configuram nosso dia-a-dia, com nossas voláteis certezas, com nossos problemas por vezes tão pequenos... O último espancado não morreu, mas sua realidade parecia uma morte lenta... Precisamos nos ajudar, com menos ambição e com gestos simples ao próximo, que podem fazer toda a diferença pra algumas vidas... A maioria das ocorrências tem em seu fundo um quê de carência existencial. Sd Moreira - 03 de Julho

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O peso do Passado - Uma conversa entre Mano Brown e Isabel Allende

Notei praticamente uma conversa sobre o peso do passado. Na Letra a Vida é Desafio dos Racionais MC`s e no prefácio do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, escrito por Isabel Allende.

Mano Brown entoa:


                                                                    "Tem que acreditar.
                                                                    Desde cedo a mãe da gente fala assim:
'filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.'
Aí passado alguns anos eu pensei:
Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como ?
Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez.
E sempre foi assim.
Você vai escolher o que tiver mais perto de você,
O que tiver dentro da sua realidade.
Você vai ser duas vezes melhor como?
Quem inventou isso aí?
Quem foi o pilantra que inventou isso aí ?
Acorda pra vida rapaz"

Isabel Allende escreve:


"Estávamos em pleno governo socialista de Salvador Allende, o primeiro marxista a tornar-se presidente numa eleição democrática [Chile], homem que tinha o sonho da igualdade e da liberdade, além da paixão para concretizar esse sonho. Aquele livro de capa amarela [As Veias Abertas da América Latina - Eduardo Galeano], no entanto, mostrava que não havia nenhuma ilha segura em nossa região, pois todos partilhávamos cinco séculos de exploração e colonização, todos estávamos ligados por um destino comum, todos pertencíamos à mesma raça de oprimidos. Se eu pudesse ler nas entrelinhas, concluiria que o governo de Salvador Allende estava condenado desde o início."

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A sombra de Dionisio

Você não gosta muito de ler... Mas lá de vez em quando alguém te sugere um livro que, no momento, te dá na telha tentar a leitura...
Hoje ele talvez seja 50 tons de cinza, antes O Segredo ou Paulo Coelho...
Não li nenhum deles e é difícil criticar o que não se conhece a fundo. Isso beira o conceito real de preconceito. Não vou julgá-los... Nem vou lê-los...
Mas, pelo que ouvi - e é só o que se ouve - o que agora está em cartaz tem um grande "Q" de sedução.

 Julgar hoje é tão banal quanto inofensivo, dizem por aí até que a fofoca é muito natural. E explodem revistas e blogs do tipo Tititi, narrando vidas, atos, bocejos e cabelos de terceiros...
Julgamos a todos com um temeroso medo de ser julgado. Aquele pequeno comentário é um ofensivo julgamento. Aquece a orelha de outrem e alivia seu peito, daquele segredo que queria sair, daquela reflexão ácida que você cria, numa maldade que você jura não ter...

Todos temos inevitavelmente. Conclusões de terceiros a toda hora e o perigo mora em como expô-la, se é que deveria ser exposta antes de uma auto-crítica.
Mas não temos auto-crítica.
Me dê um pequeno papel e escrevo a resolução de seus problemas.
Me dê um caderno e não encontrarei a resolução dos meus.

Da pausa sobre julgamento volto ao "Q" de sedução para chegar onde queria..
Esses tons trazem vontades proibidas socialmente... Vontades que todos temos, mas não podem ser expostas, com o risco de julgamento.
Vontades profanas que inundam nossos instintos, e vivemos diariamente as coibindo, para num sonho luxurioso vivê-las numa entrega sublime... Vamos escondê-las, até que o sonho se realize.
E a leitura ouriça os pêlos, ativa hormônios...
É a sombra de Dionisio...

Vontades interrompidas! A castração da liberdade gera vários fenômenos:
Noivados e casamentos que não têm harmonia com a liberdade = traições...
Mães que privam seus filhos de tudo = adolescentes ou adultos libertários, ou noutro extremo, confundido liberdade com libertinagem e droguinagem...
A liberdade é tão necessária quanto perigosa.

E, no caso da vida social, nada mais livre que uma mente, com seus próprios pensamentos e segredos, de si pra si, sem brecha a julgamentos, como numa leitura calorosa, individual e silenciosa...


domingo, 6 de janeiro de 2013

Floripa era...

Cantos de pássaros em primeiro plano, eu às vezes esqueço morar numa ilha...
Quantos tons de agudo, o rebater de asas, as perseguições aéreas..
Leveza, agilidade e precisão no voo, eu precisaria me alongar bem... e por um minuto penso num frio na barriga de um salto livre de muito alto. Meus pensamentos voam com os pássaros...
Um cachorro uiva um som dolorido e longo na manhã úmida e nublada de domingo. Agora ele toma o primeiro plano de minha audição... Tento inferir o que sentia o cão no uivo que duplica e estaciona.
Pássaros de novo num plano de fundo de ruídos automotores. Continuo calado.
O verde do morro contrasta o branco dos edifícios da Trindade...
Minha cabeça continua alçando seus voos..
Floripa está muito cheia, como a minha mente.
Acho que a ilha mente a si mesma... como a minha mente.
Se Floripa pudesse respirar e tossir, eu gostaria de saber qual praia ela escolheria pra tal inspiração.
E, noutro polo, onde iria tossir e o quê tossiria...
Acho que essa identidade é forjada demais pra ela... Eu lembro de Franklin Cascaes.
Quem lembra de Franklin Cascaes?
O turista vem a ilha e volta pro seu estado como se tivesse ido a Vegas, Ibiza..
Não há rendeiras na avenida das rendeiras, elas estão acuadas em barracos miúdos sem visibilidade...
Não há Conceição na Lagoa, nem Jurerê em Internacional...
Hoje eu quero ouvir os pássaros e adivinhar sob que lua a ilha inspiraria sua identidade original...

VersoRimado

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2013: O primeiro crime de Florianópolis

Infelizmente no primeiro dia de 2013 tive o desprivilégio de atender ao primeiro crime de Florianópolis.
Partimos, obviamente, como se não fosse o primeiro crime...  Quem sabe a décima tentativa ou o sexto salvamento... Manhã do dia primeiro!
Quantas desavenças teriam ocorrido madrugada afora por Floripa, nosso projeto frustrado de "Beverly Hills"!?
Ainda em Jurerê vi um com nariz quebrado e soube de dois caras que chegaram a ser espancados em conjunto, e amarrados um ao outro.

Breves notícias de 2013, mas agora eu protagonizava o fato.

Facadas profundas, tecido adiposo afora, campo, esparadrapo e ambulância.
Apoio do helicóptero, um cadeado estourado para o encontro de ASU e Águia.
A situação evoluiu, parada cardiorrespiratória, compressões torácicas num revezamento um tanto sanguíneo e cansativo.
Desfibrilador... e agora uma última tentativa:
Cortar o peito, espaçar as costelas, bombear manualmente o coração, que encontro...
Descoberta: Coração diretamente perfurado pela faca.. sutura direta no miocárdio, sem sucesso.

Sangue na farda, na ambulância, acima das luvas, em nosso corpo...
Sangue na rua e num pedaço de pano propositalmente embebido naquele líquido por uma parente que queria carregar o retalho vermelho como a alma de uma recordação dolorosa.
Nosso peito também abria um pouco, conforme a notícia era dada a cada um dos parentes, que visitavam o corpo gélido no interior da ambulância... Choro desavergonhado, sincero e demasiado cedo para 2013.

A imprensa chega na cena, os socorristas estão cansados e a comunicação não flui.
A cena toda está abatida. Na grade pessoas se aglomeram pra ver qualquer fresta que abra dentro da ambulância. O trágico é curioso...

Lemos no jornal, posteriormente que o motivo de tudo era a divisão de uma cerveja... Isso não nos interessou a nenhum momento naquela hora...

O trágico é curioso demais para nos revelar tudo de pronto, ainda que queiramos sabê-lo.

Deus é mais que nossa vontades.