quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O peso do Passado - Uma conversa entre Mano Brown e Isabel Allende

Notei praticamente uma conversa sobre o peso do passado. Na Letra a Vida é Desafio dos Racionais MC`s e no prefácio do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, escrito por Isabel Allende.

Mano Brown entoa:


                                                                    "Tem que acreditar.
                                                                    Desde cedo a mãe da gente fala assim:
'filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.'
Aí passado alguns anos eu pensei:
Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como ?
Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez.
E sempre foi assim.
Você vai escolher o que tiver mais perto de você,
O que tiver dentro da sua realidade.
Você vai ser duas vezes melhor como?
Quem inventou isso aí?
Quem foi o pilantra que inventou isso aí ?
Acorda pra vida rapaz"

Isabel Allende escreve:


"Estávamos em pleno governo socialista de Salvador Allende, o primeiro marxista a tornar-se presidente numa eleição democrática [Chile], homem que tinha o sonho da igualdade e da liberdade, além da paixão para concretizar esse sonho. Aquele livro de capa amarela [As Veias Abertas da América Latina - Eduardo Galeano], no entanto, mostrava que não havia nenhuma ilha segura em nossa região, pois todos partilhávamos cinco séculos de exploração e colonização, todos estávamos ligados por um destino comum, todos pertencíamos à mesma raça de oprimidos. Se eu pudesse ler nas entrelinhas, concluiria que o governo de Salvador Allende estava condenado desde o início."

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A sombra de Dionisio

Você não gosta muito de ler... Mas lá de vez em quando alguém te sugere um livro que, no momento, te dá na telha tentar a leitura...
Hoje ele talvez seja 50 tons de cinza, antes O Segredo ou Paulo Coelho...
Não li nenhum deles e é difícil criticar o que não se conhece a fundo. Isso beira o conceito real de preconceito. Não vou julgá-los... Nem vou lê-los...
Mas, pelo que ouvi - e é só o que se ouve - o que agora está em cartaz tem um grande "Q" de sedução.

 Julgar hoje é tão banal quanto inofensivo, dizem por aí até que a fofoca é muito natural. E explodem revistas e blogs do tipo Tititi, narrando vidas, atos, bocejos e cabelos de terceiros...
Julgamos a todos com um temeroso medo de ser julgado. Aquele pequeno comentário é um ofensivo julgamento. Aquece a orelha de outrem e alivia seu peito, daquele segredo que queria sair, daquela reflexão ácida que você cria, numa maldade que você jura não ter...

Todos temos inevitavelmente. Conclusões de terceiros a toda hora e o perigo mora em como expô-la, se é que deveria ser exposta antes de uma auto-crítica.
Mas não temos auto-crítica.
Me dê um pequeno papel e escrevo a resolução de seus problemas.
Me dê um caderno e não encontrarei a resolução dos meus.

Da pausa sobre julgamento volto ao "Q" de sedução para chegar onde queria..
Esses tons trazem vontades proibidas socialmente... Vontades que todos temos, mas não podem ser expostas, com o risco de julgamento.
Vontades profanas que inundam nossos instintos, e vivemos diariamente as coibindo, para num sonho luxurioso vivê-las numa entrega sublime... Vamos escondê-las, até que o sonho se realize.
E a leitura ouriça os pêlos, ativa hormônios...
É a sombra de Dionisio...

Vontades interrompidas! A castração da liberdade gera vários fenômenos:
Noivados e casamentos que não têm harmonia com a liberdade = traições...
Mães que privam seus filhos de tudo = adolescentes ou adultos libertários, ou noutro extremo, confundido liberdade com libertinagem e droguinagem...
A liberdade é tão necessária quanto perigosa.

E, no caso da vida social, nada mais livre que uma mente, com seus próprios pensamentos e segredos, de si pra si, sem brecha a julgamentos, como numa leitura calorosa, individual e silenciosa...


domingo, 6 de janeiro de 2013

Floripa era...

Cantos de pássaros em primeiro plano, eu às vezes esqueço morar numa ilha...
Quantos tons de agudo, o rebater de asas, as perseguições aéreas..
Leveza, agilidade e precisão no voo, eu precisaria me alongar bem... e por um minuto penso num frio na barriga de um salto livre de muito alto. Meus pensamentos voam com os pássaros...
Um cachorro uiva um som dolorido e longo na manhã úmida e nublada de domingo. Agora ele toma o primeiro plano de minha audição... Tento inferir o que sentia o cão no uivo que duplica e estaciona.
Pássaros de novo num plano de fundo de ruídos automotores. Continuo calado.
O verde do morro contrasta o branco dos edifícios da Trindade...
Minha cabeça continua alçando seus voos..
Floripa está muito cheia, como a minha mente.
Acho que a ilha mente a si mesma... como a minha mente.
Se Floripa pudesse respirar e tossir, eu gostaria de saber qual praia ela escolheria pra tal inspiração.
E, noutro polo, onde iria tossir e o quê tossiria...
Acho que essa identidade é forjada demais pra ela... Eu lembro de Franklin Cascaes.
Quem lembra de Franklin Cascaes?
O turista vem a ilha e volta pro seu estado como se tivesse ido a Vegas, Ibiza..
Não há rendeiras na avenida das rendeiras, elas estão acuadas em barracos miúdos sem visibilidade...
Não há Conceição na Lagoa, nem Jurerê em Internacional...
Hoje eu quero ouvir os pássaros e adivinhar sob que lua a ilha inspiraria sua identidade original...

VersoRimado

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2013: O primeiro crime de Florianópolis

Infelizmente no primeiro dia de 2013 tive o desprivilégio de atender ao primeiro crime de Florianópolis.
Partimos, obviamente, como se não fosse o primeiro crime...  Quem sabe a décima tentativa ou o sexto salvamento... Manhã do dia primeiro!
Quantas desavenças teriam ocorrido madrugada afora por Floripa, nosso projeto frustrado de "Beverly Hills"!?
Ainda em Jurerê vi um com nariz quebrado e soube de dois caras que chegaram a ser espancados em conjunto, e amarrados um ao outro.

Breves notícias de 2013, mas agora eu protagonizava o fato.

Facadas profundas, tecido adiposo afora, campo, esparadrapo e ambulância.
Apoio do helicóptero, um cadeado estourado para o encontro de ASU e Águia.
A situação evoluiu, parada cardiorrespiratória, compressões torácicas num revezamento um tanto sanguíneo e cansativo.
Desfibrilador... e agora uma última tentativa:
Cortar o peito, espaçar as costelas, bombear manualmente o coração, que encontro...
Descoberta: Coração diretamente perfurado pela faca.. sutura direta no miocárdio, sem sucesso.

Sangue na farda, na ambulância, acima das luvas, em nosso corpo...
Sangue na rua e num pedaço de pano propositalmente embebido naquele líquido por uma parente que queria carregar o retalho vermelho como a alma de uma recordação dolorosa.
Nosso peito também abria um pouco, conforme a notícia era dada a cada um dos parentes, que visitavam o corpo gélido no interior da ambulância... Choro desavergonhado, sincero e demasiado cedo para 2013.

A imprensa chega na cena, os socorristas estão cansados e a comunicação não flui.
A cena toda está abatida. Na grade pessoas se aglomeram pra ver qualquer fresta que abra dentro da ambulância. O trágico é curioso...

Lemos no jornal, posteriormente que o motivo de tudo era a divisão de uma cerveja... Isso não nos interessou a nenhum momento naquela hora...

O trágico é curioso demais para nos revelar tudo de pronto, ainda que queiramos sabê-lo.

Deus é mais que nossa vontades.